Quando há cerca de 3 anos comecei a trabalhar a felicidade corporativa em Portugal, falar de Salário Emocional era motivo suficiente para me categorizarem como lunática (não é que não seja um pouco, mas não era bem essa a imagem que gostava de estar a transmitir, confesso!).

Felizmente, nos últimos anos, e principalmente desde este início de ano 2019, muito tem mudado relativamente a esta questão. Os artigos, textos de opinião e até notícias sobre práticas promotoras de felicidade no trabalho, realizadas um pouco por todo o mundo, multiplicam-se como borboletas a eclodir após um período de metamorfose intenso.

Atualmente, já conseguimos com alguma facilidade, em contexto corporativo e principalmente entre quem trabalha na área de Recursos Humanos, ouvir a expressão Salário Emocional. O termo surge entre conversas e apresentações, que vão desde o tema da atração e retenção de talentos, employee experience, employee engagement, employee branding, etc, passando pela formação, até à liderança, motivação e team building. Parece que o assunto é transversal a uma série de áreas, todas elas de especial relevância e impacto no negócio em si.

Mas, será que todos sabemos do que se está a falar quando usamos o termo “Salário Emocional”?

Com muita pena minha, creio que não!Contudo, ainda bem. Senão o meu trabalho teria acabado de perder uma relevância significativa e este artigo, muito provavelmente, nem faria sentido.

Então, antes de falarmos sobre o custo que tem (ou não) para as empresas a implementação de Salário Emocional, convém esclarecermos sobre o que é que concretamente estamos a falar.

Há quem defina Salário Emocional como todo o conjunto de benefícios, bónus, recompensas ou prémios não monetários que as empresas dão aos seus trabalhadores. Eu não concordo totalmente com esta definição, pois esta para mim é bastante simplista. Repare que benefícios, recompensas ou prémios não monetários sempre existiram no contexto empresarial. Ou seja, se fosse apenas nisto que consiste o Salário Emocional, qual era a necessidade de agora usarmos um novo termo para nos referirmos a algo que “sempre” existiu?!

[Nenhuma, julgo eu.]

O que não existia até agora era uma preocupação de base com as emoções que todas as experiências que esses benefícios, recompensas ou prémios causam na prática, nos trabalhadores. E, isso só acontece quando é desenvolvida uma Cultura de Felicidade Corporativa.

Muito havia a dizer a este respeito, dado que só o conceito de Cultura de Felicidade em si mesmo é assunto, mais que suficiente, para outro artigo. Por isso, vou deixar o tema para explorar noutra oportunidade.

Para já, importa esclarecer que Salário Emocional é de facto, todo o conjunto de benefícios, bónus, recompensas ou prémios não monetários que as empresas dão aos seus trabalhadores, (única e exclusivamente) assentes numa Cultura de Felicidade Corporativa.

Então, quer dizer que tudo o que as empresas já fazem no sentido de promover a felicidade no trabalho, mas com foco na produtividade, não é Salário Emocional?

Nop! Não é isso que quis dizer.

Sejamos realistas: as empresas são negócios e existem para servir uma necessidade, criando valor em troca disso. A partir do momento em que uma empresa não gera dinheiro, a curto ou médio prazo, vai também deixar de produzir emprego! Por isso, sim. Mesmo quando o objetivo das empresas com a promoção de felicidade no trabalho é o aumento da produtividade, e consequentemente dos lucros da empresas, estamos a falar de Salário Emocional, desde que todas as ações sejam propostas no contexto de uma Cultura de Felicidade Corporativa.

Vou deixar aqui um pequeno excerto do livro “Cérebro Feliz – A ciência que explica a felicidade” de Dean Burnett (neurocientista britânico) que acredito que me ajudará a transmitir a mensagem que pretendo.

“(…) muitas empresas e organizações querem que os seus funcionários estejam felizes e não medem esforços (nem dinheiro) para o conseguir, através de dias de folga, exercícios de team building, consultores e seminários motivacionais, planos de retenção, inquéritos de feedback, regalias do posto de trabalho e muito mais. E embora alguns possam fazê-lo por pura generosidade de espírito e preocupação com a sua mão de obra, a verdade cínica é que funcionários felizes são mais produtivos.

Há fortes indícios que sugerem que os funcionários mais felizes são até 37 por cento mais produtivos. Assim, se tiver 100 funcionários e os fizer a todos felizes, eles podem estar a fazer o trabalho de 137 pessoas sem custos adicionais. (…) Se somar outras coisas como o facto de as pessoas felizes serem mais saudáveis e haver menos probabilidade de se queixarem, então é óbvio que as empresas vão querer fazer os seus funcionários felizes (…).”

A questão que se coloca agora é:

Porque é que não estão todas as empresas a investir na felicidade dos seus trabalhadores e a implementar o Salário Emocional?

Bem, os motivos são inúmeros. Mas, eu destaco um que considero o principal – maior parte das empresas acredita que implementar o Salário Emocional implica um investimento enorme de dinheiro, tempo e energia. De facto tempo e energia serão necessários no processo de implementação, mas dinheiro nem por isso. Se o foco estiver no desenvolvimento de uma Cultura de Felicidade Corporativa a médio e longo prazo, pequenas coisas como atitudes de gratidão, reconhecimento, interajuda e cooperação que não tem qualquer custo associado, podem promover resultados surpreendentes.

Para si que me está a ler, mas é um resistente a crer no que estou a dizer, diga-me lá uma coisa:

Como se sentiria se depois de almoço, ao entrar no seu gabinete, tivesse na sua secretária, à sua espera, uma carta de agradecimento (genuína) de um dos seus colegas, a referir o quanto foi importante em determinada altura/situação da sua vida?

Não digo que obrigatoriamente feliz, mas bem, certo?! E, provavelmente também mais motivado para a tarde de trabalho que se segue, correto? Então, aposto que esta seria também, tendencialmente, uma tarde muito mais produtiva para si que o habitual.

Pequenas coisas, grandes mudanças!

[incluindo de cultura]

Por isso, para terminar quero deixar clara a resposta à pergunta que serviu de mote a este artigo: Quanto custa o Salário Emocional?

Pode custar 0€

Já o retorno pode ter tantos zeros quanto aquele que for o seu investimento de tempo e energia, para desenvolver uma Cultura de Felicidade Corporativa, através de práticas de Salário Emocional.

Agradeço por me ter acompanhado nesta reflexão feliz.

Liliana Patrício
Founder, Happiness Researcher & Trainer, Expert em Felicidade Corporativa e Salário Emocional